quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Má alimentação e estresse causam o avanço da gastrite infantil

A pequena Heloísa Garcia Antunes, 10 anos, sempre se queixou de dor na barriga. Considerada pelos pais uma criança ativa e agitada, a menina ficava cabisbaixa e abatida quando o sintoma se manifestava. A gastrite foi diagnosticada somente no começo deste ano, quando a dona de casa Salete Garcia, mãe da garota, percebeu que a filha também apresentava mau hálito persistente, apesar dos devidos cuidados de higiene.

— A alteração no hálito me preocupou e eu procurei o atendimento de um especialista. Na consulta, Heloísa deixou claro para o médico que a dor era em forma de queimação, fato que já o levou a suspeitar de gastrite. Levei um susto. Não sabia que crianças sofriam com essa doença — relata.

Uma endoscopia confirmou o diagnóstico e o tratamento foi iniciado em seguida.

Não existem estudos que apontem a incidência da gastrite infantil no Brasil. Pediatras e gastroenterologistas, porém, são unânimes em dizer que a doença tem feito mais vítimas que em décadas passadas. A inflamação na mucosa do estômago pode ser causada pela dieta inadequada, com alimentação ácida, rica em gordura e sódio, assim como a ingestão excessiva de produtos embutidos ou condimentados.

Fatores hereditários, estresse emocional e alguns medicamentos também podem desencadear o problema. Uma vilã de peso é a bactéria Helicobacter pylori (Hp), micro-organismo que afeta 50% da população mundial e é causadora da gastrite. O gastroenterologista infantil do Hospital Anchieta Willian Casa Grande explica que a Hp é responsável por pelo menos 30% dos casos de gastrite nos pequenos.

Segundo o médico, os sintomas são praticamente os mesmos da inflamação que ocorre no estômago dos adultos, mas como as crianças não sabem expressar perfeitamente o que sentem, o diagnóstico é postergado, causando desconforto por um bom período. A dor na região abdominal é a manifestação principal.

— Normalmente, ela é interpretada pelos pais como dor de barriga. A negligência faz com que a doença avance e passe a provocar vômitos, azia, queimação torácica e mal-estar. Nas fases pré-escolar e escolar, quando a criança descobre o fast-food, com refrigerantes e alimentos menos saudáveis, o problema é mais comum — aponta Casa Grande.

Uma biópsia feita com a endoscopia pode confirmar se a gastrite foi provocada pela Helicobacter pylori, transmitida por via oral-oral ou oral-fecal. Por isso, compartilhar talheres, copos e escovas de dentes pode ser perigoso, assim como ingerir alimentos mal lavados. O médicos evitam pedir a endoscopia em crianças. Por serem naturalmente mais agitadas que os adultos, é preciso lançar mão de anestesia geral para a realização do procedimento e os pais geralmente relutam em permiti-lo.

— No entanto, a endoscopia é o melhor exame para o diagnóstico, principalmente se a inflamação é provocada pela bactéria. Ela nos permite verificar o estado da mucosa e pinçar um pedacinho do estômago para a biópsia. Quando a Hp é a desencadeadora da doença, o tratamento deve ser diferenciado. É preciso eliminar a bactéria e tratar a doença — esclarece.

Cobranças
Antecedentes familiares aumentam as chances de desenvolver gastrite. A sobrecarga de atividades e a cobrança que a vida moderna impõe aos pequenos também podem ser danosas. O pediatra Wilson Marra explica que o excesso de afazeres não permite que meninos e meninas tenham tempo para curtir a infância.

Aulas de idiomas, de informática, academia e outros compromissos, se não forem bem dosados, promovem um ritmo de vida alucinante.

— A garotada não sabe lidar com o estresse e isso tem reflexos graves na saúde. Depois da Hp e da alimentação inadequada, ele é o grande culpado pelo aumento dos casos nos últimos anos. Os pais devem deixar as crianças serem crianças. É preciso tempo para brincar e relaxar. A alimentação também deve ser muito bem cuidada e é responsabilidade dos pais, não das babás — enfatiza o pediatra.

O tratamento para a gastrite é feito com medicamentos específicos, que reduzem a secreção ácida do estômago, mas, se os cuidados com a higiene e a alimentação não forem adequados, a doença acaba virando um ciclo.

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